4 de jul de 2011

ORLANDO CRUZ: Frei Tito e Outros (NÃO DEIXEM DE LER)

OUTROS TEMPOS !
Quantos católicos de hoje conhecem os santos dos nossos tempos que
deram a vida por Jesus, pela Igreja e por uma sociedade mais justa?
Você só conhece as "celebridades" religiosas da TV que frequentam os
programas de auditório, que ganham discos de platina, ou daqueles que
celebram "casamentos" no Castelo de Chantilly?
Pois saibam que este ano é um tempo propício para conhecermos ou relembrarmos:
Que há 40 anos o padre Henrique Pereira Neto foi assassinado pela
ditadura, no Recife; que frei Tito de Alencar Lima, faleceu na França
em conseqüência das torturas sofridas no Brasil; que o padre Francisco
Jentel morreu, vítima da Segurança Nacional.
Completam-se também 30 anos dos assassinatos de Santo Dias da Silva,
mártir operário, pela PM de São Paulo; Ângelo Pereira Xavier, cacique,
em defesa da terra de seu povo Pankararé; Eloy Ferreira da Silva,
líder sindical de Minas.
E 20 anos dos assassinatos de Valdicio Barbosa dos Santos,
sindicalista capixaba, e do padre Gabriel Maire, missionário francês,
em Vitória.
É hora também de celebrar a memória de dom Helder Camara, profeta de
justiça e da paz, falecido há 10 anos
PADRE ANTÔNIO HENRIQUE PEREIRA NETO (1940-1969)
Assassinado em Recife, em maio de 1969, padre Henrique era coordenador
de Pastoral da Arquidiocese de Olinda e Recife, professor e
especialista em problemas da juventude. Auxiliar direto do arcebispo
Dom Hélder Câmara, foram ambos autores de reiteradas e contundentes
denúncias sobre os métodos de repressão utilizados pelo governo
militar. Recebia constantes ameaças de morte por parte do chamado CCC
(Comando de Caça aos Comunistas). Foi seqüestrado em 26/05/1969, sendo
seu corpo encontrado no dia seguinte, em um matagal da Cidade
Universitária de Recife, pendurado de cabeça para baixo numa árvore,
com marcas evidentes de tortura: hematomas, queimaduras de cigarro,
cortes profundos por todo o corpo, castração e dois ferimentos
produzidos por arma de fogo. O inquérito de sua morte foi arquivado e
nenhum dos acusados foi condenado, apesar dos testemunhos e das provas
irrefutáveis.

FREI TITO (1945-1974)
Assumiu a direção da Juventude Estudantil Católica em 1963 e foi morar
em Recife. Em outubro de 1968, Frei Tito foi preso por participar de
um congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna.
Foi fichado pela polícia e tornou-se alvo de perseguição da repressão
militar.
No dia 04 de novembro de 1969, foi preso juntamente com outros
dominicanos pelo delegado Sérgio Fleury, do Dops. Durante cerca de
trinta dias, sofreu torturas nas dependências deste órgão, de onde foi
levado para o Presídio Tiradentes.
Preso em novembro de 1969, em São Paulo, acusado de oferecer
infra-estrutura a Carlos Marighella, Tito é submetido à palmatória e
choques elétricos, no DEOPS, em companhia de seus confrades.
Em fevereiro do ano seguinte, quando já se encontra em mãos da Justiça
Militar, é retirado do Presídio Tiradentes e levado para a Operação
Bandeirantes, mais tarde conhecida como DOI-CODI, na rua Tutóia.
Durante três dias, batem sua cabeça na parede, queimam sua pele com
brasa de cigarros e dão-lhe choques por todo o corpo, em especial na
boca, "para receber a hóstia", gritam os algozes.
Querem que Tito denuncie quem o ajudou a conseguir o sítio de Ibiúna
para o congresso da UNE, em 1968, e assine depoimento atestando que
dominicanos participaram de assaltos a bancos. No limite de sua
resistência, Tito corta, com a gilete que lhe emprestam para fazer a
barba, a artéria interna do cotovelo esquerdo. É socorrido a tempo no
hospital militar, no Cambuci.
As incessantes torturas não abrem a boca do frade dominicano de 28
anos, mas lhe cindem a alma. Cumpre-se a profecia do capitão Albernaz,
da Oban: Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as
coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o
preço de seu silêncio.Em dezembro de 1970, incluído na lista de presos
políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, seqüestrado
pela VPR de Lamarca, Tito é banido do Brasil pelo governo Médici.
De Santiago do Chile ruma para Paris, sem jamais recuperar sua
harmonia interior. Nas ruas da capital francesa, ele "vê" o espectro
de seus torturadores. Transferido para L'Arbresle, próximo a Lyon, em
seu estreito quarto no convento construído por Le Corbusier, Tito
estremece aos gritos do pai espancado no DOPS, geme aos berros da mãe
dependurada no pau-de-arara, arrepia-se de pavor aos espasmos de seus
irmãos eletrocutados, contorce-se em calafrios sob o fantasma do
delegado Fleury. Sua mente naufraga em delírios.
Tito não recupera, no exílio, a paz que lhe fora seqüestrada. No dia
10 de agosto de 1974, um estranho silêncio paira sob o céu azul do
verão francês, envolvendo folhas, ventos, flores e pássaros. Nada se
move. Entre o céu e a terra, sob a copa de um álamo, balança o corpo
de Frei Tito, dependurado numa corda.
O suicídio foi o seu gesto de protesto e de reencontro, do outro lado
da vida, da unidade perdida. Deixara registrado nas páginas de sua
Bíblia que "é melhor morrer do que perder a vida".
Em 25 de março de 1983, o corpo de Frei Tito chegou ao Brasil. Antes
de chegar a Fortaleza, passou por São Paulo, onde foi realizada uma
celebração litúrgica em memória dos mortos pela ditadura de 1964: o
próprio Frei Tito e Alexandre Vannucchi. Cercado por bispos e numeroso
grupo de sacerdotes, Dom Paulo Evaristo Arns repudiou a tragédia da
tortura em missa de corpo presente acompanhada por mais de quatro mil
pessoas. A missa foi celebrada em trajes vermelhos, trajes usados em
celebrações de Mártires.
DOM HELDER CÂMARA (1909-1999)
O homem que marcou os rumos da Igreja no Brasil.
"O amor é o perfume das almas."

"Só as grandes humilhações nos levam ao recesso último de nós mesmos,
lá onde as fontes interiores nos banham de luz, de alegria e de paz."
"Se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo, mas se eu pergunto
por que ele é pobre, me chamam de comunista."
"Nós não queremos a paz dos pântanos, a paz enganadora que esconde
injustiças e podridão"

"Basta que um botão erre de casa para que o desencontro seja total."
"Um sonho sonhado sozinho é apenas um sonho. Um sonho sonhado juntos é
o princípio de uma nova realidade."
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Por Orlando Santana da Cruz | orlandocruz@ig.com.br

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