6 de mar. de 2010

O lixo nosso de cada dia

* Daniel Campos


Para os apaixonados, a unidade de classes se dá única e exclusivamente no amor. Para os revolucionários, na luta. Para os céticos, na morte.

Para além dessas linhas de pensamento está a de que somos todos iguais no lixo.

Dizem que uma das melhores formas de se conhecer uma pessoa é examinar seu lixo.

Pode parecer desagradável, mas os materiais que compõem o lixo e a forma como ele é organizado revelam muito sobre seu dono.

De maneira gradativa, na lixeira de casa, no contêiner do condomínio, no caminhão de lixo e nos aterros sanitários as identidades se misturam.

Independentemente de posição social, crença, origem, idade... tudo e todos se encontram no lixo que decompõe parte de nossa história.

São sobras de refeições, contas vencidas, notícias caducas, cartas rasgadas, embalagens vazias, roupas desbotadas...

São inúmeras cores, cheiros e sabores se misturando sem preconceitos ou pudores.

Pensando nisso, dever-nos-íamos dar mais valor ao lixo nosso de cada dia.

Nossa produção de resíduos é tão vertiginosa quanto nosso consumismo. Em média, um ser humano produz cinco quilos de lixo por semana.

É comum pensar que o lixo não é um problema nosso, afinal é papel do Estado manter a cidade limpa. Cobram-se, inclusive, impostos por isso, não é?

Esse raciocínio simplista tem transformado a vida refugada em um dos mais graves problemas sociais da atualidade.

As enchentes de verão atestam a estimativa de que pelo menos 30% do lixo brasileiro ficam espalhados pelas ruas das grandes cidades.

Quase 90% das mais de 240 mil toneladas de lixo produzidas por dia no Brasil são jogadas a céu aberto.

Para agravar a situação, a miséria e a falta de oportunidades levam pessoas a viverem no entorno desses lixões, comendo e vendendo o que ainda pode ser aproveitado.

Recentemente, uma menina de 15 anos morreu depois de ter sido atropelada por um trator no lixão da Estrutural, que fica a 10 quilômetros do centro de Brasília.

O lixo cresce como reflexo de uma sociedade não adepta a uma série de práticas como redução, reciclagem e reutilização.

Como remete à sujeira, ao fedor e à tragédia humana, o tema em questão é visto e tratado pelos políticos como uma coisa menor que não rende mídia e voto.

Não é à toa que a reciclagem no Brasil representa somente 2% do total do lixo gerado.

Embora os dejetos variem de acordo com as características econômicas, sociais e culturais de quem o produz, vivemos no mesmo planeta.
É esse fato que faz com que o lixo obrigatoriamente nos una.
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* É poeta, escritor, jornalista pós-graduado em Comunicação Criativa pela ABJL e autor do portal de poesia e literatura www.danielcampos.biz

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