12 de ago de 2010

Mário Trindade na UTI: A agonia de uma escola preste a entrar em estado terminal

A maior escola da rede municipal de Pirambu é um  barril de pólvora com o rastilho acesso
Por Claudomir Tavares * | claudomir@agenda21.com.br
Primeiro levaram os negros.
Mas não me importei com isso.
Eu não era negro.
Em seguida levaram alguns operários.
Mas não me importei com isso.
Eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis.
Mas não me importei com isso.
Porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados.
Mas como tenho meu emprego, também não me importei.
Agora estão me levando.
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém.
Ninguém se importa comigo.
- Bertold Brecht (1898-1956).

De referência em educação na rede municipal de Pirambu, a um barril de pólvora preste a explodir, já estando com a rastilho acesso e encaminhando-se para o ‘bum’, a Escola Municipal Mário Trindade Cruz é um caso sintomático do caos que se estabeleceu a educação em Pirambu desde 2007, crescendo seu conceito como rabo de cavalo. Neste artigo não temos a intenção de colocar a culpa individualmente neste ou naquela pessoa, neste ou naquele segmento, mas entender como uma crise sistêmica cujo problema deve ser assumido por todos. Assim, vamos procurar não incutir responsabilidades, ao mesmo tempo em que chamaremos os vários atores sociais as suas atribuições.

A rede municipal de ensino tem algo em torno de 2400 estudantes matriculados, sendo 1100 no Mário Trindade (dados que estamos checando junto ao órgão gestor, pois a evasão naquela escola tem sido flagrorosa – e tem gente que, de forma irresponsável, coloca a culpa sobre os professores, esquivando-se de suas responsabilidades). Apesar destes números, tem se verificado que a escola está com um corpo diretivo reduzido, sendo apenas uma diretora (Sônia Santos) – que já pediu exoneração e uma vice-diretora (Tânia Teles), o que tem sido humanamente impossível o funcionamento da instituição sem a presença de uma em qualquer dos turnos, principalmente pela noite, quando a escola fervilha. Os problemas se avolumam e a cada semana surge um novo capítulo desta novela que caminha para um fim de caos absoluto.

Tem sido freqüente os problemas na escola e listá-los agora seria apenas a repetição de um filme visto todas as tardes e noites (possivelmente também pela manhã). É comum flagrarmos cenas de violência, possivelmente motivadas por uso de drogas, que suspeita-se tem circulado no entorno da escola, sempre vulnerável, ameaças a professores e ao corpo vigilante da escola que tem se esmerado na defesa do patrimônio, excedendo em suas funções para garantir a segurança dos que nela se encontrem exercendo suas atividades profissionais, estando eles mesmos expostos ao perigo.

Criada através da Lei Municipal Nº 52, de 17 de novembro de 1979, a ESCOLA MUNICIPAL MÁRIO TRINDADE CRUZ funcionou na Avenida Agostinho Trindade até 1984 (local onde até 20/10/2006 funcionou a agência do Banco do Brasil), sendo transferida para a Rua Manuel Amaral Lemos, onde nas sucessivas administrações passou por diversas ampliações, reformas e redefinições de seu perfil. E são estas modificações que levaram a escola a uma metamorfose estática, com incipiência, auge e agora a decadência explícita. Não devemos tapar o sol com a peneira e ignorar o problema, fingindo que ele não existe e que soluções devem ser adiadas.

No Mário Trindade, os problemas de infraestrutura vão desde as instalações elétricas, hidráulicas, espaços físicos, equipamentos sem funcionamento (até porque este não tem sido utilizado pela falta de espaço), passando pela falta de re-definições de papéis, a ausência de um conjunto de instrumentos legais que possam regulamentar o uso da instituição, de políticas pedagógicas afirmativas, enfim, é preciso re-pensar a escola como uma instituição que foi e precisa voltar a ser um orgulho para Pirambu.

Aqui fazemos um apelo aos gestores municipais, para que calçando a sandália da humildade, olhem com as responsabilidades que lhes revestem seus cargos e não desçam de suas funções sociais. Ao Ministério Público, sugerimos a realização de uma Audiência Pública para discutir a educação pública em Pirambu, que não tem dado os encaminhamentos aos termos construídos nas várias audiências realizadas no fórum distrital desde 2007 e que tem sido motivos de levar a sociedade a desacreditar na eficácia desta instituição. As promotorias das várias comarcas de Sergipe tem dado exemplos e levado os administradores a dar provimentos as deliberações, citando como exemplo as cidades de Japaratuba e Barra dos Coqueiros. Sonhamos com algo semelhante em Pirambu.

Esta escola foi até 2007 uma referência em estrutura, infraestrutura, em iniciativas pedagógicas, época que coincidiu com a mobilização da categoria dos profissionais de ensino, já antevendo as turbulências, cuidavam-se de atar seus respectivos cintos de segurança. De lá para cá, alguns predadores se sucederam, iniciando-se na tragédia que se constituiu a Intervenção de triste memória e que depois dos estragos por inapetente e ditador Moacir Santana, seus sucessores deram continuidade a política de desmonte da educação pública, chegando ao pó, com a nota ZERO atribuída a política educacional do prefeito Zé Nilton (inicialmente acreditávamos que era uma reprovação as iniciativas apenas da secretária de Educação, mas reavaliamos e identificamos esta nota como ao conjunto das ações – ou falta delas – da administração do prefeito José Nilton de Souza).

Hoje a noite uma Comissão Especial, intitulada provisoriamente de ‘SOS Mário Trindade’ ou ‘Re-Construção o Mário Trindade’, eleita em reunião emergencial dos professores realizada na última terça-feira, 10/08, participará da Sessão da Câmara de Vereadores, onde serão relatados os problemas e os indicativos de soluções para uma escola que está na UIT da Educação, um paciente que está agonizando e que se não baixarmos a bola e assumirmos como um patrimônio cultural do povo de Pirambu, evoluirá negativamente para o estado terminal. E aí já não podemos fazer nada.
“Na primeira noite eles se aproximam
roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem :
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo o nosso medo
arranca-nos a voz da garganta.
E já não dizemos nada.”
– Eduardo Alves da Costa (No caminho, com Maiakovski)

* Claudomir Tavares da Silva (42) é professor concursado das redes públicas municipal em Pirambu, estadual em Propriá e do Pré-Universitário/Pré-SEED.

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