22 de ago de 2010

Repertório Folclórico de Propriá

Riqueza e diversidade no Baixo São Francisco (1)
Por Claudomir Tavares * /
claudomir@tribunadapraia.net
 
Tudo o que eu tinha
Deixei lá, não trouxe não
... Por isto eu vou voltar pra lá
Não posso mais ficar
Rosinha ficou lá em Propriá.
Ai ai, ui ui,
Eu tenho que voltar
Ai ai, ui ui
A minha vida tá todinha em Propriá”.
(Luiz Gonzaga e Guido Morais)



O dia de hoje, 22 de agosto, é consagrado mundialmente ao folclore (tradições populares). Como contribuição, disponibilizamos este artigo, resultado de um trabalho realizado há seis anos no Colégio Estadual Joana de Freitas Barbosa. Dedicamos este texto ao mestre Seu Benedito, a quem faremos uma visita no dia de hoje, num gesto simbólico de agradecimento ao líder do guerreiro Treme-Terra pela sua contribuição, ao muito que acrescentou a cultura popular de Sergipe. O dia de hoje é um momento privilegiada para discutirmos o repertório folclórico do Baixo São Francisco e, particularmente da cidade de Propriá,cantada em verso e prosa como a Princesinha do São Francisco.

Quem não conhece Propriá, ou mesmo conhecendo-a pouco “reparou” em suas manifestações culturais, em particular o folclore e, nesta vertente, os folguedos populares, está convencido que nesta cidade temos como expressão folclórica apenas o Grupo Folclórico Lampião Rei do Cangaço como grupo autêntico e o Bando de Curisco como grupo de projeção.

Não é de se estranhar, uma vez que nos últimos anos o grupo liderado por Antônio Xerife tem extrapolado as barreiras do nosso estado e se apresentado em outras unidades da federação, como Brasília(DF) e Serra Talhada (PE).

Em dezembro de 2004 coordenamos no Colégio Estadual “Joana de Freitas Barbosa”, o Polivalente, a maior e mais representativa escola do Baixo São Francisco o Projeto “Inventário Cultural de Propriá, em que trabalhamos nas 8ª Séries do Ensino Fundamental e 3º Seriados do Ensino Médio um conjunto de temáticas relacionadas aos elementos culturais de Propriá.

Nos meses de agosto e setembro, outubro e novembro cumprimos o cronograma de levantamento de dados e orientação aos grupos de alunos. Nos dias 06 e 07 de dezembro realizamos o 1º Workshop de Sociedade e Cultura Sergipana/Seminário de Iniciação científica de Propriá: Re-Construíndo a nossa Memória & História). Em 2005 o Projeto foi escolhido pela equipe da SEED/Ensino Médio como um dos mais representativos na rede pública de Sergipe, estando até agora aguardandoo prêmio a nós atribuídos.

Foram 24 temas pesquisados por cerca de 200 alunos integrantes de 6 turmas, sendo três do Ensino fundamental e três do Ensino Médio. O que nos chamou a atenção e causou uma agradável surpresa foi comprovar a existência de uma fantástica riqueza folclórica em propriá, marcada pela diversidade das manifestações, que incluíam Guerreiro, Capoeira, Cangaceiros, e Quadrilha Junina.

Desfez-se, então, a idéia predominante de que em Propriá predominam apenas os cangaceiros. Os folguedos da Princesinha do São Francisco vão bem além destas manifestações. Vejam só um pouco do que encontramos em nosso repertório folclórico.

I – A permanência de Lampião em Propriá

Em Propriá
há dois grupos de Cangaceiros na modalidade autênticos e um na modalidade de projeção. O primeiro, Novos Lampiões foi fundado no início dos anos 80 sob a liderança do Senhor Antônio José e ganhou logo projeção e notoriedade em todo o estado, se apresentando nos principais encontros culturais e festas tradicionais, como São Cristóvão, Laranjeiras e Japaratuba, só para citar as mais representativas.

No que há de belo, autêntico, os grupos folclóricos de Sergipe, não bastassem os vários problemas de ordem externa, também tem sofrido vários desgastes de convivência, como divisões endêmicas de cada um deles. O nosso exemplo vem com a divisão na virada da década de 80 para 90 do século passado quando Antônio Xerife, ex-integrante do grupo liderado por Antônio José, reúne um grupo de amigos, como Jessé e funda o “Lampião: Rei do Cangaço”. Neto de cangaceiro, Antônio Xerife consegue em pouco tempo inserir o grupo definitivamente no cenário do folclore sergipano, sendo no estado uma expressão desta modalidade folclórica.

Sobre os grupos de Cangaceiros escreveu o pesquisador Luiz Antônio Barreto:

“Em Sergipe três grupos cantam, dançam e representam em homenagem a Lampião. Dois em Propriá e um em Lagarto. Um dos de Propriá recentemente fez apresentação em Laranjeiras, vestido a caráter , de calça e túnica azul, chapéu típico, réplica dos usados pelo bando, espingardas e cartucheiras em forma de X, além de facas e punhais, no estilo do Rei do Cangaço. As músicas que narram as aventuras de Lampião foram recolhidas entre familiares dos homens folk’s, portanto autênticas, da época do reinado de Virgulino Ferreira; conservados boca a boca, como o povo vem conservando uma certa história marginal no Brasil. Quem estudar vai encontrar tal história, a que não consta dos compêndios. Curioso é o nome do Grupo: Cangaceiros Novos Lampiões. (...) São pois grupos novos, o que prova a dinâmica do folclore, que estão a merecer estudos aprofundados. (BARRETO, 1994: 244-46).

A permanência e a dinâmica dos grupos de Cangaceiros em Propriá tem consolidado o folclore local com sua capacidade de resistência diante das novas modalidades culturais inevitáveis.

II – Guerreiro Treme Terra de Propriá


Há mais de 40 anos chegava em Propriá o alagoano “Seu Benedito”, vindo de Arapiraca para se estabelecer em definitivo nesta cidade. A partir de sua presença na cidade, nasceu o Guerreiro Treme Terra de propriá, idealizado e liderado por ele nestas mais de quatro décadas. Pelo nome do líder, o grupo acaba por ser confundido muitas vezes como Guerreiro São Benedito ou Guerreiro de Seu Benedito. Sem problemas, já que muitos grupos tem incorporado em seu nome o do líder, como Reisado de dona Lalinha (Laranjeiras), Reisado de Sabal (Pirambu), Maracatu de Dona (Japaratuba) e tantos outros.

Como a maioria dos grupos folclóricos de Sergipe, o Guerreiro Treme Terra de Propriá encontra dificuldades de sobrevivência em função da falta de quem dê continuidade e de encontrar nos mais novos a apropriação dos seus valores culturais, tão necessários para a perpetuação das nossas mais autênticas manifestações culturais. “Seu Benedito” já tentou passar o comando do grupo para Antônio Xerife, mas este coloca dificuldades justamente pelas suas atribuições na condição de líder do “Lampião: Rei do Cangaço”.

Sobre o Guerreiro, escreveram Anderson Charles, Luiz Torres e Patrícia Melo:

“Auto natalino, surgido em Alagoas, que carrega dados ou marcas do reisado.
Alguns apontam o guerreiro como uma projeção do reisado, isto deve-se à origem luso-ameríndia e africana dessas danças, à disposição do grupo em filas, à melodia, às duas cores ( vermelho e verde), ao palhaço e a outros acessórios que são comuns entre eles.

Num conceito rápido guerreiro significa grupo de dançadores e cantores que se dispõem a guerrear contra a "nação" inimiga, ao mesmo tempo em que louvam o menino Jesus em seu nascimento, por extensão à religião católica. Nas apresentações, fazem uma seqüência de cantos e danças, lideradas pelo comando do apito do mestre, tendo as indispensáveis cenas de lutas de espadas, denotando o tema original combate.

De acordo com Mestre Euclides, do Guerreiro Treme Terra, o maior mestre de guerreiros em Sergipe, o auto teria surgido de uma dança executada pelos índios "Abori" que trazia consigo influência mística devido aos "cabocos" das matas; estes dançavam ao som de berimbaus, vindo depois a incluir uma viola adaptada com acordes de fibra vegetal. Deste animado "pagode" teria surgido a dança de Guerreiro.

Já outra lenda popular conta que uma rainha, cansada das regalias palaciana, pediu ao marido, o Rei Severino do Ramo para conhecer outros horizontes, e acompanhada de sua criada de nome Lira (Lília) e dos guardas (vassalos), encontra na floresta o índio Perí por quem se apaixona. Na volta, temendo ser descoberta, a rainha manda prender a criada. Os guardas tentam salvar a Lira e contam ao rei o amor da rainha por Perí, o rei entra em combate com o índio, vindo a morrer. O rei Severino do Ramo é o mesmo São Severino do Ramo, que é cultuado até hoje na igreja de Pau d’Alhos interior de Pernambuco.

E assim, sem uma origem precisa, o guerreiro desenvolveu-se entre os estados de Sergipe , Pernambuco e Alagoas.

A dança é composta de jornadas, estas são apresentadas de acordo com os personagens de cada grupo. Os passos de destaque são o 40 rebatido, tesoura, martelo, agalopado, tripé, coco, baião, sendo que o 40 rebatido e a tesoura predominam durante as exibições.

Um dos pontos culminantes da dança é a luta de espadas, travada entre o mestre e o índio, podendo a rainha fazer exibição da luta para demostrar esperteza e capacidade para o posto que ocupa. O Guerreiro pode trajar a cor vermelha (encarnado), o amarelo ou cores variadas, como também duas cores, o azul e o encarnado, simbolizando o azul a pureza da Vigem Maria e o vermelho o sangue derramado por Jesus.

Os personagens são o mestre, o embaixador, índio Perí, palhaço, vassalos , rainha-mestra , Líra, sereia , estrela de ouro, o caterina e o figura. O acompanhamento é feito por sanfona, pandeiro, triângulo e tambor.Encontramos guerreiro em Aracaju, Areia Branca, Divina Pastora, Ilha das Flores, Japoatã, Japaratuba, Malhado dos Bois, Malhador, Neópolis, Pacatuba, Propriá, Riachuelo e São Francisco.” (CHARLES, 2004).

A presença alagoana no Grupo “Guerreiro Treme Terra de Propriá” é muito forte. Alguns integrantes vêm de várias comunidades do vizinho estado quando o grupo necessita fazer suas apresentações. Segundo seu Benedito, ele próprio tem que desembolsar as passagens e pagamento dos integrantes.

III – Quadrilhas: O Folclore do Ciclo Junino

O pesquisador Mário de Andrade a define como "dança de salão, aos pares, de origem francesa, e que no Brasil passou a ser dançada também ao ar livre, nas festas do mês de junho, em louvor a São João, Santo Antônio e São Pedro. Os participantes obedecem às marcas ditadas por um organizador de dança. (2)

As quadrilhas juninas em Propriá tem insistido em nome cuja associação com a região está um tanto quanto distante, mas que este detalhe não tira a importância das mesmas como elemento do nosso folclore, particularmente do ciclo Junino. Na cidade estão em atividade as seguintes quadrilhas, segundo levantamentos dos alunos: Maracangaia e Acarajé com Camarão (apenas a primeira foi objeto de estudo, a segunda apenas citada como em evidência na cidade).

Uma outra Quadrilha Junina, de nome bastante sugestivo é a Rosinha de Propriá, inspirada nas várias incursões de Luiz Gonzaga que tinha em Pedro Chaves um dos seus grandes amigos, e em Rosinha sua namorada. Sobre Propriá e Luiz Gonzaga escreveu Luiz Antônio Barreto:

Luiz Gonzaga, com seu reinado popular, cantou Propriá e a amizade que fez com Pedro Chaves, da Fazenda Cabo Verde. E em vários textos demonstrou seu afeto: “Tudo o que eu tinha/ deixei lá, não trouxe não/......Por isto eu vou voltar pra lá/ não posso mais ficar/ Rosinha ficou lá em Propriá. Ai ai, ui ui,/ eu tenho que voltar/ ai ai, ui ui/ a minha vida tá todinha em Propriá”. (BARRETO: 2006).

Lamentavelmente esta quadrilha Junina encontra-se desativada esperando, quem sabe, ser reativada a partir de um re-encontro de Propriá com seu passado, não tão distante, marcado por saudosas e memoráveis lembranças.

IV – Capoeira: Resistência Cultural em Propriá

A
capoeira...é dança? É jogo? É luta? É tudo isso ao mesmo tempo? Parece que sim, e é isso que a torna tão complexa, tão rica e tão surpreendente. É luta, dissimulada, disfarçada em "brinquedo", jogo de habilidade física, astúcia, beleza... e muita malícia! A capoeira é uma manifestação da cultura popular brasileira que reúne características bem peculiares: mista de luta, jogo, dança, praticada ao som de instrumentos musicais (berimbau, pandeiro e atabaque), palmas e cânticos. É um excepcional sistema de auto defesa e treinamento físico, destacando-se entre as modalidades desportivas por ser a única originalmente brasileira e fundamentada em nossas tradições culturais. (3)

Há em Propriá pelo menos três importantes grupos de capoeira, cujos resultados tem ecoado em outras cidades do Baixo São Francisco e Alagoano com o Mestre Carlinhos e em território espanhol com o Mestre Rui Vilar.

O Grupo de Capoeira Irmãos Unidos tem se destacado ao longo dos seus 18 anos de existência a partir do trabalho do professor Antônio Carlos da Silva, vulgo “Mestre Carlinhos”, bastante festejado e admirado pelos seus colegas sergipanos e alagoanos. Seu espírito de solidariedade, de desapego às coisas materiais tem caracterizado a qualidade de seus ensinamentos cujos frutos renderam a formação de filiais e novos grupos em povoados de Propriá e de Porto Real do Colégio (AL).

Os alunos do Polivalente trouxeram a ordem do dia um grupo, que mesmo sem a projeção do Irmãos Unidos, tem se destacado pela regularidade de suas apresentações, rotatividade de comando e sincronia de seus alunos, numa simbiose perfeita entre a sala de aula e as rodas de capoeira.

Ó Grupo “Abalou Capoeira” foi idealizado pelo propriaense Rui Vilar que como professor de capoeira alçou vôos mais altos e estar há mais de dez anos em território espanhol repassando seus ensinamentos em várias cidades européias. Periodicamente ele tem visitado sua terra natal, para rever sua família, amigos e acompanhar o grupo que deixou nas mãos do contra-mestre “Pastor”. Rui tem como projeto fundar em Sergipe o 1º Resort de Capoeira, onde pretende irradiar e difundir esta arte que tem sido símbolo de resistência dos brasileiros há centenas de anos.

Os grupos de capoeira de Propriá tem por si só, uma capacidade surpreendente de resistência, mostrando que a capoeira estar cava vez mais viva do que nunca. Aliada as demais manifestações culturais, a capoeira estar sempre em evidência, numa prova inequívoca da sua presença entre nós.

Considerações Finais

“Quanto mais você canta sua aldeia,
mais universal você se torna”
(Fernando Pessoa)

O Projeto “Inventário Cultural de Propriá” foi o resultado das ações pedagógicas desenvolvidas ao longo do ano de 2004 nas disciplinas Sociedade & Cultura Sergipana e teve como objetivo promover um levantamento dos aspectos históricos, políticos, culturais e sociais da cidade de Propriá, a partir de um estudo inicial sobre fontes primárias e secundárias. Sua metodologia constou de pesquisas biográficas e bibliográficas, levantando informações sobre os vários temas objetos de estudos. Sua culminância se deu através de exposição dialogada, a partir dos temas pesquisados. Os resultados obtidos constituirão um conjunto de documentos como o que acabamos de produzir, ainda que não conclusivos, sendo indispensável a contribuição de todos, com críticas, sugestões, constituindo-se num processo contínuo de construção e re-construção de nossa memória e de nossa história.
____________________________________
* Claudomir Tavares da Silva (402 é professor de Cultura Sergipana no CE Joana de Freitas Barbosa e de História no Pré-UNI/SEED
Notas:

(1) Publicado pela primeira vez em 2004, logo carecendo de reparos, no que as críticas e sugestões serão imprescindíveis.
(2) Conforme “Quadrilha”. Disponível em:
3) Conforme “A origem da Capoeira no Brasil”. Disponível em: http://www.capoeirabrasil-ce.com.br/historia/historia1.htm - Acessado em: 19 junho 2006.

Bibliografia:

BARRETO, Luiz Antônio. A Permanência de Lampião. In: __ Um Novo Entendimento do Folclore: e Outras Abordagens Culturais. Aracaju: Sociedade Editorial de Sergipe, 1994. pp. 344-46.
..................................... Os encantos de Propriá (propriamente falando). Pirambu: Tribuna da Praia, 2006. Disponível em: CHARLES, Anderson, TORRES, Luiz e MELO, Patrícia. Nosso Estandarte é: Guerreiro. Aracaju: Infonet, 2004.

Fonte: TRIBUNA DA PRAIA.net - Em: 22/08/2010

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