17 de dez de 2009

Dom Pedro II no Baixo São Francisco (sesquicentenário de uma visita – IV)

Por Luiz Fernando Ribeiro Soutelo *

A passagem pelo São Francisco - Ainda a 11 de outubro de 1859 não se sabia em Aracaju a data do início da excursão imperial pelo rio São Francisco. Na tarde deste dia, a notícia chegou ao conhecimento do Presidente da Província, Manuel da Cunha Galvão. Viera em carta particular que um amigo lhe dirigira de Salvador. Trouxera-a o vapor “Valéria de Sinimbu”, da Companhia Baiana. Em dois dias o Imperador estaria em Penedo.

Disposto a partir para o São Francisco no dia seguinte, às 5 horas da manhã, passou a diligenciar providências para desincumbir-se da missão de receber o monarca, convocando ao palácio os chefes das principais repartições da Província e determinando a abertura de muitas delas e da alfândega até tarde da noite, a fim de expedirem-se os necessários documentos para o despacho do navio.

Na madrugada seguinte, o “Valéria de Sinimbu” vencia a linha entre o rio e o mar, levando o Presidente Cunha Galvão, seu secretário e um oficial da Secretaria, o Chefe de Polícia (cargo correspondente ao de Secretário da Segurança Pública), Ângelo da Silva Ramos, o Capitão do Porto, José Moreira Guerra, o Companhia da Companhia Fixa e o do Corpo de Polícia da Província, além da banda de música provincial. Na esteira do vapor seguiam a catraia “Piauitinga” e o reboque “Aracaju”, da Associação Sergipense, os quais, contando com práticos, deveriam balizar a entrada da barra.

Transportada a foz do rio, às quatro horas da tarde, seguiu o vapor para Vila Nova (atual Neópolis) onde atracou ao largo, às sete e meia da noite. Na altura de Brejo Grande, encontraram-se as embarcações que conduziam os governantes das duas Províncias. Por determinação do Presidente de Alagoas, Souza Dantas, em honra do de Sergipe salvou “o vapor de guerra que o conduzia, fazendo subir as vergas toda a tripulação do mesmo vapor, e prorrompendo em vivas os mais entusiásticos a S. M. o Imperador, o que tudo era acompanhado de harmoniosos sons da música marcial que se achava a bordo, a qual durante estas demonstrações de fervor e regozijo tocava o hino nacional”. (SANTOS, 1860: 153)

Recebido pelas autoridades locais, instalou-se Cunha Galvão em casa que lhe aprontara o Presidente da Câmara, Tomás Pinheiro de Souza Costa, e começou a diligenciar providências para o recebimento do Império em Vila Nova e Propriá. Requisita o Valéria de Sinimbu para conduzi-lo, no dia seguinte, até a barra, ao encontro da flotilha imperial, e determina a partida do Capitão Manuel Agostinho da Silva Moreira, da Companhia Fixa, para Propriá, com um ofício para o Juiz de Direito da Comarca, Hugolino Ayres de Freitas Albuquerque, presidente da comissão naquela cidade, orientando-o quanto a iniciativa a adotar.

Com o emissário foram enviados adornos para casa, onde se hospedaria o monarca, criados para o serviço, armamentos e alguns soldados.

Desde o final da manhã daquele dia, 12 de outubro, o Imperador estava no mar, chegando à foz do São Francisco na tarde do dia seguinte.

Era o primeiro contato do Imperador com o rio e seu universo. Como ele próprio afirma o espetáculo foi belo. Ao cair da tarde, no crepúsculo, os navios embandeirados, as tripulações nas vergas, os canhões troando, as bandas de música executando o hino e o vapor Apa passando entre eles, com o Imperador com seus quase dois metros de altura, em posição de destaque.

Ali, na barra do São Francisco, desenrolava-se uma cena do cerimonial naval brasileiro. Ali não estava um homem qualquer, mas o monarca, em visita a seus súditos, ao qual se prestavam as honras de praxe.

Fundeado o Apa, “com 7 palmos de fundo”, logo começaram a chegar autoridades, como o Deputado Mendonça Castelo Branco, de Alagoas, antes mesmo do Presidente Manuel Pinto de Souza Dantas, o capitão do porto de Aracaju, o Presidente de Sergipe, Manuel da Cunha Galvão, e seus acompanhantes, a oficialidade do “Iguatemi”, enfim um mundo de personalidades que se encontrava ali para tributar homenagem ao soberano.

Antes de retirarem–se os Presidentes das duas Províncias, que ocuparem lugares na mesa imperial durante o chá, receberam a recomendação de encontrarem-se a postos às 5 horas da manha, pois Dom Pedro II pretendia sair cedo para a visita à primeira povoação: Piassabuçu.

Iniciava-se nesta noite a visita imperial ao São Francisco. Ela se estenderia até o dia 24, quando ele deixa Penedo e embarca de volta a Bahia, depois de percorrer as principais localidades das duas províncias, ainda que a base de apoio tivesse ficado do lado de Alagoas. A partir dele era mais fácil atingir-se a cachoeira de Paulo Afonso.

Em toda a viagem, para a qual o Imperador se preparara lendo “Viagem às Cachoeiras de Paulo Afonso”, de José Vieira de Carvalho e Silva, ele teve uma companhia inseparável: uma cópia do mapa de Halfeld, feita por Boulanger.
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* Escritor e Historiador

Bibliografia:

SANTOS, Luiz Álvares. Viagem Imperial à Província de Sergipe. Salvador: Tipografia do Diário, 1860.

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