26 de jul de 2010

Defesa em cordel

Por Adiberto Souza

De número 201000901221, tramita na Turma Recursal do Tribunal de Justiça de Sergipe um inusitado pedido de Habeas Corpus, assinado pelo advogado Cesar Vladimir Bomfim Rocha, em favor do também advogado José Gomes de Britto Neto. Toda composta em literatura de cordel, a peça já recebeu parecer do Ministério Público Estadual pelo trancamento da Ação Penal. Veja, a seguir, o teor do HC:

Excelência me perdoe;
A forma da narração;
O humor um pouco agreste;
Dessa minha explanação.
É coisa de nordestino,
E ranço da profissão.

Desconsidere, Excelência;
A métrica e a’amarração.
E perdoe o impetrante;
Pela forma de Expressão.

Venho em nome de um amigo;
Colega de Profissão.
Processado injustamente;
Por injúria e difamação.

Peço por ele Excelência;
Não por ele reclamar.
O colega é competente;
Ninguém precisa’ajudar.

É mais pelo desaforo;
Da injustiça em questão.
Do que por necessidade;
Por carência ou “percisão”.

Vida de advogado;
É vida cheia de espinho.
É problema todo dia;
Do imenso ao miudinho.

É briga de cachorro grande;
É briga de passarinho.
É causa de 1 milhão;
É causa de dez continho.
É causa de todo tipo;
Na mão de um só padrinho.

Tem umas que’até dá gosto;
Que se ganha um dinheirinho.
Têm outras que só problema;
Não dá pro pão nem pro vinho.

É marido aperreado;
É marido “pianinho”.
É mulher cheia de ódio;
É mulher com ciuminho.
É mulher que apanha e fala;
É marido caladinho.
No Fórum tudo se acha;
Lá tem de tudo um pouquinho.

É cabra safado mentindo;
É homem de bem no cantinho.
É briga de empresário;
Desavença de vizinho.
É promotor endeusado;
É promotor centradinho.
É colega ignorante;
É’Advogado bonzinho.
Tem gente de todo tipo;
O errado e o certinho.

Tem cabra frouxo; valente;
Tem corajoso, pimpão.
Mulher casada com homem;
Tem Maria Machadão.
Tem gente de todo tipo;
Tem uns que presta;
Outros não.

Tem Magistrado elegante;
De tarimba e precisão.
Tem Promotor preparado;
Uns assim, outros não.

Tem moça reboculosa;
Que vai lá pra aparecer.
Tem perfume inebriante;
Do caboclo enlouquecer.
Quem nunca viu tá perdendo;
Quem duvidar, vá lá ver.

Lá tem também passarela;
Pras moçoilas desfilar.
Amigo pra bater papo;
Desafeto pra xingar.

Cafezinho e boa prosa;
Num precisa procurar.
Quem vai ao Fórum, Excelência;
De tudo vai encontrar

Lá tem mulher feia;
Da ruindade do coração.
A maldade toma conta;
Ficam fracas de feição.
A pele fica enrugada;
Se engilham os dedos da mão.
Faz mais medo do’que’a seca;
Quando chega no sertão.

É pior que jegue velho;
É pior que assombração.
Pior que cacimba seca;
Pior que espinho na mão.

Feiúra dessa, Excelência;
É coisa de se espantar.
É melhor fitar Medusa;
E’em pedra se tornar.
Do que c’uma bruxa dessas;
O caboclo se’encontrar.

Num pense que exagero;
Isso que eu vou narrar.
Mulher feia de ruindade;
É coisa pra se evitar.

A língua é afiada;
Como corte de facão.
“Os cabelo” é assanhado;
Como ninho de gavião.
A ganância é sem limite;
Até os ‘zóio’ é cifrão.

As vezes eu me pergunto;
Se é causa ou conseqüência.
Se a maldade é da feiúra;
Se é sintoma ou doença.

Falando nela, Excelência;
Faça prece e oração.
Reze o Credo e a Ave Maria;
E rogue por salvação.
Desconjuro. Vade-retro;
De cruz segura na mão.
Invoque tudo que é Santo;
Prá não ver aparição.

Tem mulher que é assim;
A ruindade nunca acaba.
É filme de Hitchcok;
É como “trama macabra”.

Quando vejo, corro logo;
Tenho medo dessa praga.
Eu não quero nem negócio,
Com essa tal... (não achei a rima)
(Ô tentação!!)

Mas o Fórum é assim mesmo;
Vou parar de reclamar.
Tem as belas, tem as feias;
Cabra tem que acostumar.

Advogar é uma festa;
Tem tempestade e trovão.
Mas também tem calmaria;
E hora de diversão.

Mas agora, Excelência;
A coisa quer complicar.
Tá ficando perigoso;
O caboclo advogar.

Tem gente se incomodando;
Com a forma de falar.
É só pra ganhar dinheiro;
Sem nada para invocar.
Presta queixa do sujeito;
Querendo lhe processar.

O Advogado, Excelência;
Tem que lê, ver e falar.
O relativo ao processo;
É livre pra se expressar.

O limite, Excelência;
É fácil de se encontrar.
Só não pode rogar praga;
Trocar sopapo e xingar.

Mas pra dizer o que pensa;
Não precisa permissão.
Narrar com vigor os fatos;
É a sua obrigação.

Se a moda pega, Excelência;
A verdade vai se esconder.
E o que acontece na lide;
Ninguém vai poder dizer.

Esse impetrante, coitado;
Vai sair da OAB.
Vai comprar uma viola;
Fazer verso pra viver.
Vai fechar o escritório;
E vai pra feira vender.

A querelante, Excelência;
Atuando sem razão.
Entendendo criminosas;
Trechos duma citação.
Nomeou Advogado,
Pra fazer reclamação.

Prá não ser repetitivo;
E’alongar a petição.
Remeto Vossa Excelência;
Ao qu’ela disse n’ação.
Onde tudo tá transcrito;
Com clareza e precisão.

Nada lá é calúnia;
Injúria ou difamação.
E, excluída, a primeira;
É coisa da profissão.

O Advogado é imune;
Pra poder se espernear.
Pra falar duro, efusivo;
Não pode se acovardar.
E relativo ao processo;
Não pode é caluniar.

A verdade mal narrada;
Sem riqueza e emoção;
Sem sentimento; amornada;
Sem amor e sem paixão;
Deixa a tela preto e branco;
Lhe retira a precisão.

E o colega nada disse;
Que pudesse ofender.
Não há crime na peça;
Qualquer cristão pode ler.

Restou-me agora, Excelência;
Com esperança e humor.
Socorrer o bom amigo;
Vim acudir o doutor.

Foi dada entrada na queixa;
E marcada a transação.
Audiência dia 7;
Nas festas de São João.
E, socorrendo o amigo,
Processado sem razão.
Impetro esse Habeas Corpus,
Pra trancar aquela ação.

Sei que o feito, embora simples;
Demora um pouco prá’andar.
Tem muita coisa pra ler;
Tem que dar vista; Estudar.
A pauta tá sempre cheia;
Muita coisa pra olhar.
Sabendo de tudo isso;
Pra prejuízo evitar.
Fiz também requerimento;
De concessão liminar.

Narrados estão os fatos;
O direito vou buscar.
Explicados os motivos;
Do pedido de trancar.
Com respeito lhe envio;
Esse HC pra julgar.

O pedido, Excelência;
Vou logo lhe adiantar.
É trancar a ação penal,
Liberdade preservar.
Garantir o ir e vir;
E o livre caminhar.
Deixar o dileto amigo,
Livre pra advogar.

Liminarmente, Excelência;
Venho logo requerer.
Que conceda o Habeas Corpus;
Para o feito suspender.
Impedir a transação;
Com data pra’acontecer.

No dia do julgamento;
Eu venho aqui sustentar.
Trago escudo e armadura;
Sal grosso, bom patuá.
Só não trago e viola,
Porque ainda não sei tocar.

Dependendo de quem “teja”;
Na platéia a escutar.
Trago também um escudo;
Para pedra eu não virar.

E usando da artimanha;
Que um dia usou Perseu.
Fico olhando de soslaio;
O bibelô de asmodeu.

O número do processo;
Vou agora adiantar.
2010 é o ano;
(Já comecei a falar).
45 a seguir;
(Escrivão pode anotar).
1006 vem adiante;
(Tô com pressa de acabar).
Com 04 eu encerro;
O feito pra se trancar.

O paciente Excelência;
O nome vou revelar.
José Gomes (no começo);
De Britto (de Própria).
Neto é o complemento;
De quem quero amparar.

Os documentos, Excelência;
Acabei de Anexar.
Lá, tudo que tá escrito;
Vosmicê vai confirmar.

Ratifico meu pedido;
De tutela liminar.
Prá, no mérito, Excelência;
Aquela queixa trancar.

Com respeito me despeço;
Não vou mais lhe incomodar.
Já me alonguei o bastante;
Tô quase pra terminar.
Só falta dizer a data;
Bater carimbo e assinar.

Aracaju é’a cidade;
Dessa minha explanação.
Já tá terminando maio;
Já tâmo em pleno São João.
E lhe rogando justiça;
Eu encerro a petição.

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