1 de jan de 2010

Claudomir: “Cruz credo! Lá vem ele!”

Por Paulo Heimar Souto | heimar@ufs.br


          Claudomir, filho de pescadores, iniciou sua vida escolar em 1977, na Escola Isolada do Povoado Touro, situada no município litorâneo da Barra dos Coqueiros. Em 1980, juntamente com a irmã, mudou para o Povoado Flexeiras, localizada no município de Santo Amaro das Brotas, onde cursou a 4ª série também em uma escola rural.

           Em seu depoimento, Claudomir ressalta a importância dada por seus pais aos estudos. Segundo ele, apesar de serem camponeses pescadores era muito comum ouvirem a seguinte frase: “Eu não tenho herança para dar a vocês, a herança que eu tenho é a educação. Então estudem”.

          Visivelmente emocionado e indicando saudades de sua infância, Claudomir lembra que sempre no final das tardes ia pescar com seu pai, pernoitava no barquinho e, quando retornava pela manhã, se dirigia para a escola.
Dormia no barco! A gente comia bolachão com banana e tomava água. Precisava mais nada! Aquilo para a gente era algo fantástico, né! Tinha muito mosquito lá, mas isso marcou! (Entrevista ao autor em 18/03/2005)
          Em outras oportunidades também acompanhava sua mãe nas atividades de pesca, numa localidade chamada de Riacho do Macaco. Segundo o depoente, foi o sofrimento das atividades pesqueiras dos pais e da exploração dos pescadores artesanais¹ de Pirambu, que o motivou posteriormente a ingressar na militância estudantil.

          Claudomir deu início ao gosto pelas aulas através do intermédio de uma tia e da sua mãe que ministraram aulas para o MOBRAL (Movimento Brasileiro para Alfabetização), em uma escola no Povoado Canal, localizado no município da Barra dos Coqueiros. Desde pequeno conviveu e aprendeu a gostar das atividades docentes ocorridas em seu meio familiar. A apreciação era tão intensa que mesmo sem compromisso freqüentava estas aulas, à noite:
[...] mas o motivo do ingresso foi a minha tia, Ilma dos Santos Tavares que era professora no Povoado Canal e minha mãe, Edimê Tavares da Silva, que em alguns momentos deu aulas, em substituição a minha tia quando ficava grávida. Eu gostava tanto das aulas que tinha o antigo Mobral e eu ia à noite sem compromisso. (Entrevista ao autor em 18/03/2005)
          Após denúncia formulada à prefeitura da Barra dos Coqueiros foi obrigado a deixar de freqüentar as aulas sob a alegação de que estava tomando a vaga de outra pessoa. Assim, “foi literalmente expulso do Mobral”.

          Dos oito professores, Claudomir foi o único que já tinha ingressado no ensino superior antes de ser aprovado para o PQD. Fora estudante do curso de História da UFS, tendo em 6 anos de curso totalizado 43% de créditos cursados. Em seu relato, lembra que enquanto aluno da UFS considerou-se “um tanto irresponsável”. Reprovações e abandonos de disciplinas faziam parte da sua vida discente, conforme sua explicação a seguir:

Naquela época não sabia das provas e, no período por problemas de faltas, abandonei e perdi. Então, já tive dificuldades de pegá-las num período subseqüente. Isso ocorreu sempre! Com problemas de ordem pessoal que hoje acredito estarem superando e, outras disciplinas chegavam no período de janeiro, por exemplo fevereiro, fazia uma opção – eu era muito festeiro! – aí vinha o carnaval, aquela disciplina, eu abandonava. (Entrevista ao autor em 18/03/2005)
          Antes do ingressar no PQD, Claudomir achava que o Projeto fosse “uma espécie de apêndice da Universidade”. Diante deste quadro, viu na graduação em História oferecida pelo PQD como uma alternativa para “salvar o curso que estava um tanto quanto comprometido (eu queria fazer vestibular para ‘limpar’ o currículo!)”.

          A escolha pelo curso de História teve forte influência da participação no movimento estudantil e da militância política. De acordo com o relato de Claudomir, a primeira aprovação para o curso de História obtida na UFS, proporcionou a abertura de novos horizontes e ajudou a consolidar novas concepções políticas.

          Claudomir foi o professor que mais explicitou suas preocupações políticas e também, de forma mais evidente, inseriu sua história de vida no contexto sócio-político mais amplo, inclusive da sua opção para a graduação no curso de História, embora tenha tentado inicialmente vestibular para o curso de Educação Física.

          A “possibilidade de transformar a sociedade”, através das aulas de História, era o propósito do professor Claudomir. Apesar da boa intenção, achava que já estava preparado para ministrar as aulas. No entanto, não fazia muitas leituras que pudessem subsidiar o trabalho em sala de aula, tendo dedicado muito tempo para as atividades de jornalismo.

          Claudomir relata que “[...] tinha dificuldades de passar duas aulas tendo argumento para dar duas aulas seguidas”. Reconhece também o estigma negativo que carregava perante os alunos enquanto professor de História, pois lembra que quando ia entrar na sala de aula alguns alunos diziam “Cruz credo! Lá vem ele!”

          A narrativa de Claudomir revela o nível de consciência das limitações de sua prática pedagógica antes de dar prosseguimento ao curso de História, através do PQD. A carência de leituras e de aprofundamento teórico foram assinalados como empecilhos para que suas aulas de História possibilitassem a transformação da sociedade, conforme seu ideal docente.

Nota:

¹ De acordo com Silva, em seus estudos relativos às atividades pesqueiras do município de Pirambu, o pescador artesanal é caracterizado por utilizar tecnologia simples com custo de produção baixo. A sua produção se destina basicamente ao auto-sustento e, quando há comercialização, esta é destinada ao mercado interno. Segundo a autora, em alguns casos a remuneração é feita através do sistema de meação, sendo os grupos de trabalho “formados por referenciais de parentesco, sem vínculo empregatício entre as tripulações e os mestres” (SILVA, 1985, p. 99)

Referência Bibliográfica:

SOUTO, Paulo Heimar, Universidade Federal de Sergipe (Doutor em Educação); CAPES; DA ENXADA AO GIZ: TRAJETÓRIAS DE PROFESSORES INTERIORANOS RUMO À ESCOLA EM SERGIPE

Fonte: http://www.historal.kit.net/paulo_heimar_souto.pdf - Acessado em: 01/01/2010

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