6 de jan de 2010

Lembranças do Canal – I

Uma viagem pelas memórias guardadas do povoado onde nasci e guardo as primeiras lembranças que ajudaram a formar a minha personalidade
Por Claudomir Tavares * | claudomir@infonet.com.br

“A vida é como uma caixa de bombons...
você nunca sabe o que vai encontrar”
(Forest Gump)


Prólogo

O filme ‘Forest Gump: O Contador de Histórias’, (Paramonunt, Pictures, direção Robert Zeemeckisi) é um triunfo cinematográfico que se tornou um fenômeno. Tom Hanks apresenta uma impressionante interpretação como Forest, um homem comum cuja simplicidade e inocência vão influenciar uma geração¹. Não temos a inocência de Forest, mas procuramos ‘imitá-lo’ em suas virtudes. Utilizamos o exemplo do enredo do filme vencedor de 6 oscar’s para ilustrar o procedimento que adotaremos para expressar nesta série de textos onde procuraremos contar a História do Canal de São Sebastião, povoado da Barra dos Coqueiros, distante da sede do município 24 quilômetros e da vizinha cidade de Pirambu apenas quatro quilômetros.

O povoado Canal de São Sebastião era na metade do século XX uma comunidade que não reunia mais que dez residências fixadas as margens do Canal do Pomonga,“Projeto de um canal de navegação entre o Rio Japaratuba, e o Rio Pomonga, estudo sob a direção do Exm. Sr. Dr. Manuel da Cunha Galvão, Presidente da Província, pelo Engenheiro Civil Euzébio Stevaux”, (SANTOS, 2005) construída na metade do século XIX pelo Império do Brasil e que teve navegando em suas águas o Imperador Dom Pedro II.
A partir dos anos 50 incorporou parte da população que migrava do povoado Porto Grande, comunidade distante 2 quilômetros, e que dava seus últimos fôlegos, perdendo outra parte de sua gente para o visinho povoado Pirambu (no município de Japaratuba) e povoados de Santo Amaro das Brotas e Barra dos Coqueiros.
“Aquela obra importantíssima não podia deixar de merecer a atenção de S. M. o Imperador durante sua estada em Sergipe. Zeloso como é S. M. por tudo que diz respeito aos melhoramentos do País, procura sempre a ocasião de por si mesmo estuda-los, examinando minuciosamente o que a eles é concernente”. (SANTOS, 2005).
A partir de hoje, sempre as quarta-feiras (esta é a proposta, inicialmente) vamos levantar informações sobre esta comunidade que atualmente constitui-se em uma referência de turismo e lazer dos visitantes de Pirambu, Barra dos Coqueiros e Santo Amaro das Brotas, principalmente nos finais de semana. Não se trata de dar conta da totalidade da sua História, mas contribuir como um de seus filhos que veio ao mundo às 10h30mins do dia 28 de Julho de 1968 (esta é data da minha Certidão de Nascimento, mas segundo minha mãe o dia foi 29 de Julho), através das mãos das parteiras ‘Mãe Mafalda’ (que morava em Pirambu) e ‘Mão Maria’ (que morava no vizinho povoado Touro), fruto do amor entre dona Edimê Tavares da Silva (im memorian) e seu Francisco Pereira da Silva (Sisinho).

Testemunho da História do Brasil

No período de novembro de 1859 a fevereiro de 1860, o Imperador, Dom Pedro II visitou as províncias do Norte do Brasil, para acompanhar de perto as realizações do governo imperial e conhecer de perto (ainda mais) o país que governava desde 1840 (ele permaneceu até 1889, quando foi deposto pelo golpe que proclamou a República Federativa do Brasil). Neste período ele visitou Aracaju, Ilha dos Coqueiros (onde atualmente está a cidade de Barra dos Coqueiros), Maruim, Laranjeiras, Santo Amaro das Brotas, Propriá, Pirambu, entre outras vilas, cidades e povoações de Sergipe.

No dia 16 de Janeiro de 1960 (Sergipe deve se preparar para as comemorações em 2010 dos 150 anos da visita do Imperador Dom Pedro II a província) Pirambu (voz do Rio Japaratuba), do lado da Barra dos Coqueiros), Porto Grande (onde atualmente está as ruínas da Igreja de Bom Jesus dos Navegantes, padroeiro do extinto povoado), ao local onde seria habitado o atual Canal de São Sebastião (as margens do Canal do Pomonga), e daí, até o Angelim, próximo do atual povoado Jatobá, na Barra dos Coqueiros.

Visita ao Canal do Pomonga e Japaratuba

Havia um projeto de ligar por canais os rios Real ao São Francisco, construindo entre eles os canais de Santa Maria – Pitanga/Poxim (entre São Cristóvão e Aracaju), Pomonga (entre os atuais limites de Barra dos Coqueiros e Santo Amaro das Brotas) e Japaratuba (entre a região das Pedras, próximo aos atuais povoados Flecheiras, em Santo Amaro das Brotas e Bebedouro, em Pirambu, ao Coxo, próximo ao povoado Aguilhadas, encurtando o percurso que antes era serpenteado e que passou a ser chamado Rio das Pedras, que vai da Fazenda Arapiraca a Aguilhadas).

Preparando a visita – Para conhecer de perto esta grandiosa obra, o empreendedor (termo bastante utilizado na atualidade) Imperador Dom Pedro II resolveu visitar:

“No dia 16 de Janeiro, apesar de ter chegado de Laranjeiras a 1 hora da madrugada, à s 5 horas da manhã estava S. M. de pé para ir visitar o canal do Pomonga e Japaratuba. Às 6 horas da manhã saiu o Imperador do Paço, acompanhado de toda sua comitiva, menos o Sr. Vereador Pedreira, e o Sr. Mordomo Melo, que ficaram no Paço ao serviço de S. M. a Imperatriz, e o Sr. Cônego Melo, que ficou ao lado do Sr. Dionísio Feijó, que se achava muito doente. Além da comitiva, acompanham a S. M. o Sr. Presidente da Província, o Sr. Chefe de Policia, e muitos outros Cavalheiros, e entre os quais os dois Engenheiros ao serviço da Província. Às 6 horas da manhã embarca para a barra dos coqueiros, donde tinha de ir por terra examinar os lugares por onde passaria o canal.” (SANTOS, 2005).
Barra do Japaratuba – As 09 horas estava a comitiva no povoado Porto Grande.
“O embarque no Aracajú, e o desembarque na barra dos Coqueiros foi acompanhado das cerimônias do estilo. Da barra dos Coqueiros segue S. M. para o Porto-grande, lugar que fica à margem do Japaratuba. Daí vai até a barra do Japaratuba, onde chegou as 9 horas da manhã. Examinou minuciosamente este lugar, fazendo algumas perguntas sobre a profundidade do rio neste lugar, e o embaraços que existem na saída da barra. Dali voltou para o Porto-grande, onde almoçou em casa do Sr. Góes. Neste lugar ouviu S. M. os pobres, e as pessoas que o procuravam para ter a honra de beijar-lhe a mão.” (SANTOS, 2005).
No Canal do Pomonga – O Imperador Dom Pedro II percorreu todo o trecho compreendido entre o encontro do Canal do Pomonga com o Rio Japaratuba, até o Angelim, onde este encontrava-se com o Rio Pomonga, que a partir daí segue caudaloso até o seu encontro com o Rio Sergipe (que a época era chamado de Cotinguiba).
“Às 11 ¼ horas 2 embarcou S. M. na galeota, acompanhado do Sr. Engenheiro Pirro, que levava a planta do Pomonga e Japaratuba, e o projeto de canalização feito pelo Sr. Stevaux, de que acima damos noticia. Na galeota percorreu S. M. todo o canal existente entre o Pomonga e Japaratuba, fazendo minuciosas reflexões a respeito da direção deste canal, e comparando-a com a do outro projetado. (,,,)Foi uma das viagens mais incômodas para o Imperador. Possa a visita imperial a estes lugares servir de incentivo aos representantes da Província para empenharem seus esforços a fim de darem todo o adiantamento a esta obra, fazendo convergir para ela os recursos da Província de Sergipe.” (SANTOS, 2005).
O local onde depois seria edificado o atual povoado de Canal de São Sebastião entrava definitivamente para a História de Sergipe e do Brasil, pelas razões elencadas acima, registrada pela pena de Luiz Álvares dos Santos.

Continua...
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* Claudomir Tavares (40) é professor de História, Sociedade e Cultura da Escola Municipal Mário Trindade Cruz (Pirambu), de História, Filosofia, Sociologia e Cultura Sergipana no Colégio Estadual Joana de Freitas Barbosa (Propriá). Licenciado em História pela UFS, com Pós Graduação em Gestão de Recursos Hídricos (Aperfeiçoamento – Concluído / Cursando Especialização) pela UFS e Didática e Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade São Luís de França. É presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Japaratuba, membro fundador da Sociedade Sócio-Ambiental do Vale do Japaratuba (SOS Rio Japaratuba), presidente municipal e secretário estadual de movimentos sociais do Partido Verde e Diretor-Fundador da Tribuna da Praia

Referências:

SANTOS, Luiz Álvares do. Viagem Imperial a Província de Sergipe. 2ª Ed. Revisada e Anotada. (Introdução e notas de Luiz Antônio Barreto). Aracaju: Degrase, 2005. pp 163-206. (No Prelo)

Notas:

¹ Forest Gump: O Contador de História. Distribuição: Paramonunt Pictures. Direção: Robert Zemeckisi. Cor, 142 min (Vencedor de 6 Oscar’s, incluindo o de melhor filme)
2 Correspondente a 11h15min.
O local onde depois seria edificado o atual povoado de Canal de São Sebastião entrava definitivamente para a História de Sergipe e do Brasil, pelas razões elencadas acima, registrada pela pena de Luiz Álvares dos Santos.No Canal do Pomonga – O Imperador Dom Pedro II percorreu todo o trecho compreendido entre o encontro do Canal do Pomonga com o Rio Japaratuba, até o Angelim, onde este encontrava-se com o Rio Pomonga, que a partir daí segue caudaloso até o seu encontro com o Rio Sergipe (que a época era chamado de Cotinguiba).
Barra do Japaratuba – As 09 horas estava a comitiva no povoado Porto Grande.

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