6 de set de 2010

Rio agoniza e deixa população preocupada

O relatório completo sobre o impacto ambiental da área ainda será concluído pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Japaratuba, na qual as causas serão apontadas e possíveis soluções sugeridas. ¹
Por Claudomir Tavares | claudomir@tribunadapraia.net

 
O constante avanço do mar e a falta de peixes e camarões no rio Japaratuba tem chamado a atenção das autoridades. Em Pirambu, no litoral Norte de Sergipe e município onde há o encontro desse rio com o oceano, a água já avançou cerca de 150 metros e ameaça casas e bares que ficam na beira da praia. Além disso, barcos de pesca estão encontrando dificuldades para sair da costa, já que o nível do rio está baixo.

Esta semana uma comissão formada por representantes das principais cidades afetadas, técnicos e dirigentes do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Japaratuba (CBHRJ) e de outros órgãos ligados ao meio ambiente da região visitaram alguns pontos do rio para descobrir o que está causando esse fenômeno. A partir daí, será elaborado um relatório, que vai fazer parte de um estudo sobre o impacto ambiental na região que será entregue ao Ministério Público (MPE/SE), Ibama e Adema.

A primeira parte da viagem foi por terra. A equipe visitou propriedades cortadas pelo rio e conversou com pessoas que tiram o sustento da família das águas do Japaratuba. A pouca produtividade do rio foi o principal ponto de reclamação de todas as pessoas. “Esse rio aqui já criou muitas famílias, mas hoje não tem quem se sustente só dele. De jeito nenhum, não tem quem diga que consiga viver só do camarão ou do peixe que pesca aqui. Não tem como”, reclamou um pescador, que preferiu não se identificar.

Em diversos locais foram constatados graves problemas ambientais que mudaram a paisagem e o ecossistema da região. Para o técnico ambiental Luiz Carlos Sousa Silva, toda essa mudança está sendo causada por atitudes erradas do homem. “Pelo que pudemos constatar a agressão ao meio ambiente aqui começou quando interferiram no curso do rio. Isso mexeu com todas as espécies animais e vegetais que vivem da água. É uma coisa muito séria e precisa ser reparado o quanto antes para que a vida volte ao normal em torno do Japaratuba” afirma.

A segunda parte da visita aconteceu pelo rio. Toda a comissão, a bordo de um barco de pesca, conheceu de perto as dificuldades relatadas pelos pescadores e a situação do Japaratuba. Em muitos trechos puderam ser vistos bancos de areia, o que obrigou o comandante a fazer verdadeiras manobras para conseguir passar sem encalhar a embarcação. Ao longo do trajeto, os únicos barcos avistados foram pequenas canoas em busca de siris e caranguejos.

Depois de cerca de dez quilômetros percorridos, a comitiva chegou a um dos pontos mais críticos do rio. Nele, a água baixa e sem força perde espaço para a vegetação, que toma o espaço e impede a navegabilidade de qualquer embarcação. Segundo os pescadores que acompanharam a comissão, essa situação se estende por cerca de cinco quilômetros. Daquele ponto o barco teve que voltar, porque não tinha mais como ir adiante.

Passagem Molhada

Segundo denúncias de alguns moradores da região, um grande fazendeiro construiu uma estrada cortando o rio (chamada de passagem molhada) para ligar dois terrenos de sua propriedade. Essa obra estaria represando a água do Japaratuba e impedindo o seu fluxo normal. “Ele aterrou o rio, porque a propriedade dele é de um lado e do outro. Daí ele precisava passar com os caminhões, tratores e a caminhonete, foi lá e fez essa passagem molhada. Isso não é permitido por lei, porque esse rio aqui é navegável. Ele não pode fazer isso”, afirma José Ricardo Almeida da Cruz, proprietário de terras vizinhas às desse fazendeiro.

O relatório completo sobre o impacto ambiental da área ainda será concluído pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Japaratuba, na qual as causas serão apontadas e possíveis soluções sugeridas. Mas os representantes das cidades afetadas já estão ansiosos para resolver a questão.

“O próximo passo é aguardar esse laudo do comitê para que a gente possa tomar as decisões legais e resolver o quanto antes isso, porque quem está sofrendo é o povo. Porque pode ficar sem ter o que pescar e o impacto ambiental é incalculável”, advertiu Juarez de Deus, presidente da Câmara de Vereadores de Pirambu.

Para o vereador da cidade de Japaratuba Rui Brandão, a união de força é fundamental para que o objetivo seja alcançado. “Esse rio tem uma importância econômica muito grande para todos dessa região. Toda a comunidade deve estar envolvida nisso e essa interação com os outros municípios vai deixar essa campanha cada vez mais forte, e tenho certeza que conseguiremos o nosso objetivo” relata.

Além do prejuízo econômico e ambiental, os problemas do Japaratuba estão atrapalhando diversos projetos turísticos na região. Segundo o diretor de Meio Ambiente de Carmópolis, Alisson Braga, a prefeitura tem o intuito de promover viagens de catamarã da cidade até a foz, no município de Pirambu. Mas o rio nessa situação inviabilizaria os passeios.

“A ideia é sair lá do povoado Aguadas, em Carmópolis, e vir até Pirambu pelo rio. Mas, como a gente viu, tem um imenso trecho que não dá para passar. Com esse problema não temos como trabalhar essa questão turística como pretendemos”, ressalta Alisson. Resta à população aguardar pelas próximas ações do comitê e dos poderes públicos locais para ter de volta o rio Japaratuba como era antes.

¹ Esta matéria foi publicada em 22/09/2009, estando sendo republicado pela atualidade do tema e considerando a omissão dos órgãos ambientais, que não tem tomado qualquer providência para resolver este imbróglio, o maior conflito ambiental da história de Pirambu

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